Nidinha e a história dos brasileiros sem confiança no Inglês que falam

Texto originalmente publicado em Inglês em outubro de 2019. Para ler o original, clique aqui.

Quando conheci a Nidinha (esse é o apelido dela) pela primeira vez, fiquei impressionado com o quanto ela sabia sobre idiomas. Tivemos uma conexão instantânea por causa de nossos interesses em comum por arte, culturas, viagens e línguas. Nossas aulas, portanto, eram essencialmente longas conversas.

Nidinha havia sido professora universitária por décadas. Quando ela se aposentou, eu nasci. Foram só 30 anos depois que nos conhecemos. Ela queria aprimorar o Inglês já que não viajava para o exterior havia mais de seis anos. Nidinha era fluente em Espanhol e conseguia se comunicar muito bem em Francês. Ela também tinha algum conhecimento de Italiano. O Inglês, no entanto, sempre havia sido sua paixão junto com uma cidade; para ser mais específico, Nova York. Mais frequentemente do que o contrário, nossas conversas giravam em torno das memórias dela sobre viagens para cerca de 50 países diferentes. Nova York era um de seus destinos favoritos, talvez o mais de todos. Ela costumava passar um mês na “cidade que nunca dorme” todos os anos. Devido a condições médicas, ela teve que parar de fazer viagens de longa distância no começo da década.

Após alguns meses de aula, senti que precisava sugerir a Nidinha que conversasse com os médicos dela: eu disse “você deveria viajar”. Muitas vezes, nossas conversas se concentravam nas vicissitudes de ser idosa. Para Nidinha em particular, a diferença entre o cansaço físico e a mente ativa era o maior problema. De certo modo, ela sentia-se infeliz por não poder mais viajar. Eu rapidamente tive essa impressão em nossas interações, por isso fiz a sugestão. Estava claro para mim que viajar novamente daria a ela o ar fresco de que precisava, e também o sentimento de autonomia pelo qual tanto ansiava.

Vamos avançar um pouco no tempo: depois de um pouco de planejamento, Nidinha teve permissão para viajar, mas não sozinha. Como ela não encontrou um parente ou um amigo com disponibilidade para ser sua companhia, ela convidou a mim. Depois de mais um pouco de planejamento, chegamos a Nova York na época da Páscoa de 2019. Foi uma aventura e tanto. Ela teve alguns problemas de saúde, provavelmente por causa da combinação de mudanças na alimentação e do clima, mas visitamos muitos dos lugares de que ela se lembrava ou sugeriu.

Falar diz respeito a comunicar-se

Aventuras da viagem à parte, o que quero destacar aqui é sobre a língua: quando estávamos juntos, Nidinha costumava ter vergonha ou falta de confiança no Inglês dela. Faz sentido se você está com alguém que conhece o idioma um pouco melhor do que você, mas não deveria! Falar outro idioma é sempre desafiador. É isso que todos nós fazemos quando fazemos aulas de um idioma. Nós nos expomos ao julgamento dos outros.

Nidinha e eu visitando o Memorial do 11/09 em abril de 2019. Licença: CC BY-NC-ND 4.0

Isto é bastante impressionístico, baseado nas histórias contadas por outros brasileiros professores de Inglês e na minha experiência pessoal: os brasileiros falantes de Inglês tendem a menosprezar sua capacidade de falar o idioma. Na maioria das vezes, devido a problemas de pronúncia. Também na maioria das vezes, esse medo é injustificado. Sempre que eu deixava a Nidinha interagindo com outros, no instante em que eu retornava, todos me elogiavam sobre o Inglês dela. Era óbvio para mim que ela podia se comunicar perfeitamente bem em Inglês. Não importa se algumas palavras fugiam da cabeça dela, ela conseguia se fazer entender. E é disso que falar uma língua se trata.

A história da Nidinha ilustra muito bem por que você deve sempre se arriscar a falar em Inglês se quiser melhorar suas habilidades comunicativas. Erros serão cometidos, e tudo bem. A língua falada não é (essencialmente) sobre usar gramática de modo perfeito nem sobre ter todo o vocabulário que você desejaria ter para aquela ocasião. Trata-se de fazer a interação funcionar, com falhas, linguagem corporal, alguma explicação extra para palavras que você não lembra, etc.

Nidinha conseguia falar muito bem comigo em aula. Ela descobriu que também podia fazer o mesmo em Nova York depois de seis anos. Quando você sabe que vem estudando o idioma e praticando-o o máximo possível com seu professor e sempre que tem uma chance, então você deve confiar no seu progresso. Assuma os riscos e converse. Esqueça a gramática por um instante e concentre-se nesse objetivo: você só precisa se fazer entender.

Published by Luiz Coletto

I am a Ph.D. student (UFMG) and I hold an M.A. in Communication and Culture (UFRJ). I teach English online both as a Foreign Language (EFL) and as a Lingua Franca (ELF). My main areas of expertise are Conversation, English for Academic Purposes (EAP), and Exam preparation (TOEFL iBT, TOEFL ITP, and proficiency exams for Brazilian Graduate Programs). I am currently based in Belo Horizonte, Brazil.

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