Se há tanta pesquisa, por que há tanta coisa errada na política?

Desde que comecei o doutorado, quando pego Uber para ir à universidade, a “interação” ocorre por dois caminhos possíveis: silêncio total ou uma conversa breve. Havendo conversa, invariavelmente sou perguntado sobre qual é minha área ou o que estudo. Como num experimento, já respondi de inúmeras maneiras: às vezes digo Ciência Política, mas não falo que é doutorado; às vezes amplio para “área de Ciências Sociais“; eventualmente informo que estudo comportamento humano (risos). Sempre respondo com uma sensação mista de que “devo me preparar para sair correndo” e “devo me preparar para uma análise sistêmica do que se passa no Brasil“. Meu experimento, por ora, só levou ao segundo resultado.

Introdução feita, na corrida desta semana, respondi que estudava Ciência Política. O motorista reagiu como boa parte reage quando falo isso: com um franzir de testa que mescla “é um cliente, preciso demonstrar interesse” com “que porcaria de escolha” com “deve estar tendo trabalho para explicar o Bolsonaro, né?”. Ao fim e ao cabo, sempre sou perguntado sobre Bolsonaro de alguma maneira. Esse motorista em particular reagiu com um enquadramento para o qual eu não havia atentado ainda o quanto pode ser profícuo: ele disse que não entende como há tanto estudo, tanta pesquisa, e a política está nesse estado, com tanta corrupção, tanta coisa errada.

É uma reação comum, mas o enquadramento me ajudou a respondê-lo, e vou estender a reflexão aqui. Respondi que, em geral, há duas atividades dominantes entre pesquisadores: uma delas diz respeito à descrição e análise do que ocorre; a outra, conseguinte à primeira, é mais aplicada, e procura oferecer soluções a problemas reais [grosseiramente, é a caracterização de pesquisa pura e aplicada, respectivamente].

Disse a ele que a maioria dos cientistas políticos analisa e explica o que ocorre na política, mas não somos atores diretos na/da política, não fazemos política no sentido usual. Acrescentei que um ramo como o da análise de políticas públicas, no geral, ajuda muito a explicar como e quais programas funcionam, etc. Recorri, por fim, a uma comparação com áreas menos controversas: disse a ele que entre biólogos e médicos não há controvérsia quanto à eficácia de vacinas; ele concordou. Eu disse que, mesmo assim, há problemas graves ocorrendo pelo mundo (citei São Paulo e Nova York como exemplos) por causa de campanhas anti-vacinação baseadas em mentiras, mas também, em convicções pessoais e religiosas.

A partir do exemplo das vacinas, também disse a ele que há um volume enorme de pesquisas em todas as áreas cujos consensos implicam que sabemos, sim, quais medidas, propostas e arranjos são mais efetivos ou trazem resultados comprovados. Em todas as áreas. Entretanto, como no caso das vacinas, o que decisões individuais respaldadas pela liberdade de cada indivíduo e das famílias, pela democracia e por pactos coletivos vão produzir está fora do controle de quem pesquisa o assunto.

A existência de um consenso e de uma avalanche de evidências não se traduz em consenso político e social necessariamente. O exemplo das vacinas é ainda mais expressivo porque a eficácia da vacinação é coletiva, uma vez que os imunizados protegem os que não podem se vacinar devido a alergias ou questões imunológicas, por exemplo. Logo, a decisão individual, neste caso, tem alto impacto coletivo. Como se resolve isso é de natureza inteiramente política.

Encerrei dizendo, então, que se sabe muito sobre como combater corrupção ou oferecer melhor educação à sociedade, mas estas evidências podem ou não ser objeto de uso político, no sentido usual. Elas podem integrar projetos políticos e podem ser coletivamente escolhidas (via eleição). Ou não. Podem ser implementadas com ou sem sucesso. Ou nunca serem implementadas.

Do mais prosaico (má nutrição afeta o desenvolvimento de crianças) aos temas mais complexos (política de combate às drogas; legalização do aborto; aquecimento global), existe um volume muito expressivo de evidências sobre quais as melhores formas de lidar com cada questão. A maioria delas vai requerer uma chancela de um domínio específico, o normativo, que não diz respeito às evidências em si. O que decorre disso, no fim, é o resultado do desenrolar da política e das disputas sociais.

Desigualdades sistêmicas: talento só não basta

Toda esta reflexão foi para fazer (mais) um registro sobre os severos limites que visões vagas de liberalismo deveriam receber nas nossas sociedades e escolhas políticas. Um relatório do Centro para a Educação e a Força de Trabalho da Universidade Georgetown (Washington, DC, EUA), lançado em 2019, tem o seguinte título: Nascidos para vencer, escolarizados para perder: por que estudantes igualmente talentosas(os) não têm as mesmas chances de serem tudo que podem ser.

O título já diz muito, e o essencial é que igualdade de talento (medido de certa maneira, é claro) não garante resultados potenciais iguais no futuro. Esse tipo de conclusão e debate é antigo entre correntes filosóficas e políticas, e costuma inclusive distinguir grosseiramente o que é ser de esquerda ou de direita. Pelo menos quanto à relação entre mérito individual e histórico familiar e social, as evidências de pesquisa são gritantes quanto à ineficácia de se acreditar que cada indivíduo é responsável único pelo (in)sucesso de sua trajetória escolar e profissional.

Para colocar um resumo, traduzo abaixo quatro parágrafos do sumário executivo do estudo (página 1). O que eles antecipam é um museu de velhas novidades, como vocês poderão notar. Uma obervação pontual e mais técnica: o estudo é longitudinal.

Ao longo da juventude, crianças em relativa vantagem gozam de ambientes protetivos e enriquecidos que ajudam a assegurar o sucesso delas. Enquanto isso, crianças igualmente talentosas, mas de backgrounds pobres, ficam para trás por causa de desvantagens materiais. Surpreendentemente, uma criança do menor quartil [25%] de status socioeconômico, que tem alta pontuação em testes no jardim de infância, tem apenas uma chance de 3 em 10 de obter uma graduação e um bom emprego de nível inicial quando adulta, comparada a uma chance de 7 em 10 para uma criança no quartil mais alto [75%] de status socioeconômico que tem baixa pontuação em testes. […]

Crianças de minorias étnicas nos EUA têm maior probabilidade do que crianças brancas de virem de famílias com baixo status socioeconômico. Arte: Georgetown Center on Education and the Workforce, Born to Win, Schooled to Lose: Why Equally Talented Students Don’t Get Equal Chances to Be All They Can Be, 2019, p.14.

Quando crianças de famílias afluentes “tropeçam”, elas têm uma queda mais suave e apoio para voltar ao rumo, enquanto aquelas de ambientes mais adversos são mais propensas a “cair feio” e nunca mais se recuperarem.

Essas vantagens e desvantagens são compostas por desigualdades raciais e étnicas sistêmicas. Como resultado, crianças negras e latinas têm menor probabilidade do que colegas brancas e asiáticas com pontuações similares em testes de alcançar sucesso educacional e econômico.

Assim, a probabilidade de sucesso é com muita frequência determinada não pelo talento inato de uma criança, mas pelas circunstâncias de vida dela ou dele — incluindo fatores que determinam o acesso a oportunidades baseados em classe, raça e etnia. Em resumo, o sistema conspira contra jovens de famílias pobres, especialmente aquelas que são negras ou latinas. 

Políticas afirmativas como cotas, a despeito das complexidades de implementação e mesmo monitoramento, são um exemplo de intervenção baseada neste tipo de evidência sobre desigualdades que perduram sistematicamente. Considere-se, por fim, que os dados são sobre os Estados Unidos, logo a situação desse tipo de desigualdade no Brasil é possivelmente mais alarmante. Eu poderia prosseguir para o debate clássico sobre capitalismo e desigualdade, mas acho que meu raciocínio já está bastante óbvio.

O que fazemos coletivamente com as evidências que já temos? Não culpe (apenas) quem pesquisa. Ironicamente, a foto fixa desta publicação é de uma manifestação feita [provavelmente] em 2017 na capital dos EUA, em que cientistas marcharam pedindo por mais investimentos em pesquisa e mais análise científica na política. É uma foto emblemática para a encruzilhada entre o desalento do motorista que me interpelou e a situação atual da ciência e da pesquisa brasileiras.

Published by Luiz Coletto

I am a political science Ph.D. candidate (UFMG) and I hold an M.A. in Communication (UFRJ). I study the political behavior of LGBT voters in a comparative perspective. My main areas of interest are political behavior; voting behavior; sexual minorities; LGBT social movements; political psychology; survey experiments; and quantitative methods. I am currently based in Belo Horizonte, Brazil.

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